NOVA YORK - No local onde há 35 anos 500 mil jovens sonharam com
paz e amor ao som de músicas de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Joan Baez, The
Who e Joe Cocker, escavadeiras estão removendo a terra para a construção de
um burguês centro cultural. Enquanto isso, os órfãos do movimento hippie
protestam, afirmando que um santuário está sendo profanado. É que Woodstock
vai virar museu.
Artie Kornfeld, porta-voz da Woodstock Preservation
Alliance, lamenta que o comércio triunfe, finalmente, sobre aqueles que
pretenderam dar-lhe as costas. Durante anos a organização vinha fazendo
campanhas para que o local em que foi realizado o festival - a fazenda de Max
Yasgur, próxima à pequena cidade de Bethel, em Sullivan County, a 150km da
cidade de Nova York - fosse preservado.
Mas, com o início das obras, os hippies já maduros tiveram
que dar o braço a torcer aos representantes do establishment, os mesmos
que tanto depreciaram quando Jimi Hendrix anunciara o triunfo dos jovens.
Na época em que Jefferson Airplane cantava ''Olhem ao
redor/
vocês verão uma revolução'', o empresário Alan Gerry, atual dono do terreno,
tinha seus 40 anos. Era, portanto, um velho para aqueles jovens. Hoje, aos 75
anos, este homem que começou como montador de antenas e criou o império
televisivo Cablevisión, é quem ri por último.
No nome do futuro centro cultural, não haverá espaço para
a palavra Woodstock. O local se chamará Bethel Woods Center for the Arts. Mas
seus responsáveis, e os empresários vizinhos, certamente tirarão proveito da
aura do evento.
Trinta e cinco anos depois do Festival de Woodstock, milhares
de pessoas chegarão para resgatar um pouco daquela magia - disse o governador
de Nova York George Pataki, na cerimônia de início das obras.
Além de música clássica e jazz, o centro cultural de
Bethel promoverá concertos de rock. Um museu de Woodstock recordará o
festival.
- Bethel e arredores estão diante de um renascimento -
acrescentou Pataki.
Para surpresa de muitos, os fãs de Woodstock formaram uma
comunidade expressiva e vocal, que combateu o projeto do museu. Mas os filhos do
flower power não foram suficientemente organizados para reunir os fundos
necessários e cobrir a oferta de Gerry.
Avaliada em cerca de US$ 1 milhão quando Gerry a comprou
do fazendeiro Yasgur, em 1995, a propriedade hoje vale bem mais. Foi só
anunciar o projeto de construção de um centro cultural para os preços dos
terrenos vizinhos dispararem.
Para o governo federal, que apóia com US$ 15 milhões as
obras (orçadas ao todo em US$ 65 milhões) trata-se de impulsionar o turismo
e criar novos postos de trabalho. A idéia de uma nova sociedade, com a qual
sonharam os hippies de Woodstock, terá como destino o museu.